ORDENADO EM DACHAU

DACHAU 1944 – UM PRISIONEIRO É ORDENADO PADRE

Caros amigos,  Falo destes temas, na triste convicção que o mal é uma semente tenaz e venenosa sempre pronta a despontar do coração do homem mesmo nas suas formas mais obscenas.
Mas o mal não tem a última palavra!  Confirma-me esta certeza a história incredível e impossível de uma vocação, de uma ordenação sacerdotal acontecida no campo de concentração de Dachau em Dezembro de 1944 (falou disso o jornal La Stampa).
Mas para quê tornar-se padre num lugar de extermínio, lugar do mal mais absoluto?
é acreditar contra a evidência descarada do "não sentido" e do mal, que Deus existe e é maior, e que Jesus venceu a morte e é o Vivente, que o bem é maior, que o amor e a vida ultrapassam tudo. 
Um padre é precisamente isto, que sempre é chamado a testemunha e anunciar com a sua escolha e vocação! 

 

QUANDO EM DACHAU FOI ORDENADO UM PADRE

No campo de concentração nazi em 1944, um bispo francês deportado por ter escondido nas escolas crianças judias, ordenou um diácono alemão doente de tuberculose


O anel episcopal forjado com o bronze, a cruz peitoral talhada num pedaço d emadeira de carvalho e até uma mitra realizada em grande segredo. Com o prisioneiro número 103001 que - revestido com aquelas insígnias episcopais - impõe as mãos sobre um jovem companheiro de prisão. Tudo isto enquanto outro deportado judeu – fora da barraca – tem um concerto com o seu violino para distrair a atenção dos guardas nazis. E os pastores evangélicos preparam o café para celebrar o evento no final do rito.

 

Entre as dobras do horror dos campos de concentração e da Shoah – que o «Dia da Memória» exorta a não esquecer – há também este: a recordação de uma ordenação sacerdotal de todo extraordinária.

Aconteceu em Dachau em Dezembro 1944 e teve como protagonistas um jovem diácono alemão doente de tuberculose - Karl Leisner, que João Paulo II proclamaria beato em 1996 - e o bispo de Clermont-Ferrand, monsenhor Gabriel Piguet, o único entre os bispos franceses a ser deportado pelos nazis.
O acontecimento é um dos capítulos da história da «barraca dos padres», a secção de Dachau onde os nazis a partir de 1940 concentraram os religiosos por actividades contrárias ao Reich. A macabra contagem das camisas castanhas fala de bem 2.720 membros do clero presos no campo da Baviera; e destes foram bem 1.024 a não sair de lá vivos. Na grande maioria tratou-se de sacerdotes católicos (sobretudo polacos), mas entre os internados no campo havia também pastores protestantes e padres ortodoxos que também nesta estação viveram aquele «ecumenismo de sangue» a que muitas vezes se refere o Papa Francisco. 

Karl Leisner vinha da diocese de Munster, onde tinha crescido ano associativismo católico local. Entrado no seminário em 1939 já tinha sido ordenado diácono pelo seu bispo, Clemens von Galen, a mais corajosa voz católica na Alemanha, entre os opositores do nazismo.

Poucos meses depois, porém, fora preso por um comentário imprudente acerca do falhado atentado a Hitler.

Preso em Sachsenhausen, em 1940 foi transferido também ele para Dachau. Quando chegou já estava doente de tuberculose e as dificuldades do campo fizeram piorar a doença.

Conduzido várias vezes da barraca dos padres à enfermaria geral, viveu-a como uma oportunidade para realizar o seu ministério entre os doentes do campo.

 Vendo as suas condições de saúde piorar, dia após dia, os outros sacerdotes desejavam que pudesse ao menos ser ordenado padre antes de morrer; mas a ausência de um bispo tornava este sonho impossível. Até que em Setembro 1944 ao campo, num comboio de deportados da França, não chagou a Dachau monsenhor Piguet. Figura um pouco anormal: sobrevivente da primeira guerra mundial (onde tinha também sido ferido), como bispo de Clermont-Ferrand tinha estado muito próximo do marechal Pétain, guia da frente de colaboracionista de Vichy. Mas no domingo de Pentecostes daquele dramático 1944 tinha sido preso pelas Ss na catedral, diante dos fiéis. A acusação oficial era a de ter ajudado um sacerdote próximo da «Resistência»; por trás de uma acção assim tão ruidosa havia provavelmente também outro: os nazis deviam ter sabido que sob sua indicação muitos institutos católicos da diocese escondiam crianças e jovens hebreus. Assim foi Piguet acabar em Dachau, na barraca dos padres.


Tendo sabido da história de Karl Leisner o Bispo francês aceitou presidir à ordenação às escondidas, assumindo-se também um risco pessoal diante dos guardas nazis. E para que tudo fosse segundo as normas do Direito canónico, através de um canal secreto de comunicação com o exterior, foi feito chegar a Dachau um bilhete de von Galen que autorizava a ordenação.

A cerimónia teve lugar a 17 Dezembro 1944, que naquele ano era o Domingo Gaudete; as condições físicas de Leisner eram já de tal forma precárias que só no dia 26 Dezembro pôde celebrar a sua primeira Missa. Quando no final de Abril 1945 os americanos libertaram o campo de Dachau o jovem sacerdote ainda estava vivo; mas já não teve condições de se restabelecer: morreu a 12 agosto 1945.


Piguet, por sua vez, pôde voltar à sua diocese de Clermont-Ferrand, onde morreu em 1952. A França do general De Gaulle não lhe tinha perdoado, o seu passado: o seu nome tinha acabado na mesma nas listas do ministério do Interior sobre os bispos comprometidos com o governo de Vichy. Quem nunca esqueceu a sua coragem foram os jovens hebreus que graças a ele se salvaram do extermínio: em força dos seus testemunhos a 7 Novembro 2000 Piguet foi reconhecido pelo Yad Vashem em Jerusalém como «Justo entre as nações». 

 

Tirado do jornal LA STAMPA (27.01.18) de Giorgio Bernardelli

 

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