Encontro com a Palavra de Deus – XXIX DOMINGO TEMPO COMUM – ANO A

XXIX DOMINGO TEMPO COMUM – ANO A

    

22 de Outubro de 2017

 ANO A

 

AS LEITURAS DO DIA 

Is 45, 1.4-6: Eu te chamei pelo teu nome e te deu um título glorioso.

Salmo 95: Aclamai a glória e o poder do Senhor.

1Tes 1, 1-5: Recordamos a vossa fé, caridade e esperança.

Evangelho: Mt 22, 15-21: Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.

 

A PALAVRA É MEDITADA

A frase que Jesus pronuncia, como resposta àqueles que tentam apanhá-lo em falso, tornou-se uma sentença famosa e utilizada – mais ou menos apropriadamente – na linguagem comum. Falou-se da legítima autonomia da Igreja em relação ao Estado; Igreja em relação ao Estado; da supremacia do poder espiritual sobre o temporal; da obrigação de respeitar as leis civis sem “ses e sem mas”, renunciando a toda a forma de objecção de consciência que não se limite a uma intimista procura do encontro com Deus…

No contexto cultural e social em que vivemos hoje, por certos aspectos muito diversos diferente daquilo em que se movia o hebreu Jesus, e na complexidade das relações entre a religião e a sociedade civil, aparece necessário perceber antes de mais uma chamada de atenção forte e decisiva à nossa responsabilidade. Ao cristão, discípulo do messias Jesus, as cosias materiais interessam, e como! Mas não tanto por uma questão de debates estéreis e de mesquinhez, que no fundo se limitam muitas vezes a ver aquilo que “mais me convém”. Pagar os impostos ou não pagar os impostos, dividir a herança ou não, respeitar as leis do Estado ou então não, não são exatamente as questões que aquecem o coração de Jesus e dos seus. Pelo menos de maneira superficial…

A história da humanidade, a vida de todos os homens e de cada indivíduo, têm uma íntima dimensão simbólica, e são o lugar de manifestação da vida divina. Não existem outros modos para viver e testemunhar a fé no Deus criador e salvador se não habitar responsavelmente na cidade do homem. Todos os grandes santos o ensinam. Sobretudo os mártires, capazes de pagar de pessoa o preço deste enraizamento na história do povo, como lugar do encontro com a vida de Deus.

Ai de nós, então, se procuramos escapar num refúgio intimista que nos dispense do discernimento quotidiano sobre o compromisso para que a nossa cidade seja mais humana, e portanto mais próxima do sonho de Deus par ao homem. Ai de nós, por outro lado, se reduzimos o compromisso a um frenético trabalho social ou, pior ainda, a uma resma de reivindicações para com um poder exercido mal, mas que talvez no nosso pequeno também nós gerimos de modo inoportuno. No fundo, a alienação espiritualista e o materialismo ateu são as duas faces da mesma moeda. Um Deus sem o homem, e o César acima do homem nascem da mesma tragédia, que é a de desperdiçar aquilo que Deus uniu: corpo e alma, carne e espirito, Pai e irmãos!

Separar, dividir, repartir a integridade da pessoa e a comunhão entre os povos. No fundo é este o grande pecado de toda a ditadura de turno: que seja a de um poderoso ou de um governo, ou então a subtil e insidiosa da cultura do relativismo. Quem separa não vem de Deus, Uno e Trino, mas vem do diabo, o “divisor”.

Também os fariseus legalistas, sem se darem conta, com a sua hipocrisia, aterrorizada pelo medo de ter que abandonar as falsas seguranças e de fazer má figura, escondem atrás da sua pergunta ratoeira, o grito de cada filho: “mas nós, a quem pertencemos?” Somos propriedade de um César de turno, de uma moda de passagem, de uma propaganda massacrante, de uma formalidade burocrática, de uma paixão desconcertante, de uma corrida de sucesso... Ou então, Senhor, somos teus?

A quem pertencemos? A coragem de nos colocarmos esta questão, que nos leva à beira do precipício do nada, para aí encontrar os braços a esperar-nos da eternidade, é o verdadeiro caminho para a responsabilidade pelas cosias do mundo. Significa aceitar o desafio da liberdade, que nunca é autonomia desvinculada das relações, mas sim, um ousado abandono a uma ligação que nos precede, nos acompanha, nos envolve, nos empurra.

No arriscar este passo, que transforma todas as coisas num véu a tirar, numa pista a reconhecer, num fragmento do infinito, podemos sentir intensas e radicais as esplêndidas palavras de São Paulo: “Tudo é vosso. Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus” (1 Cor 3,23).

 

A PALAVRA É REZADA

A tentação é a de sempre:

ceder, Jesus, ao César de turno,

garantir-se o apoio, aproveitar da sua amizade,  

e em troca demonstrar-se conivente com o seu poder,  

até ao ponto de declarar a exibição da força

ou o consenso alcançado como qualquer coisa de divino.

Mas existe também uma outra face da medalha

que não deve ser esquecida:

é a ilusão de poder subtrair-se às próprias responsabilidades,

ao respeito pelas leis, à prática da legalidade,

com a desculpa que César não é Deus

e que só a Deus se deve obediência.

Eis porque é que a tua resposta, Jesus, se revela preciosa:

ela obriga-nos a fazer as contas com os nossos deveres de cidadãos

e a não arranjar desculpas para nos sentirmos exonerados.

Mas ao mesmo tempo ela tira qualquer pátina de divino

ao exercício do poder,

subtrai-o a uma zona franca em que gostaria de se colocar

e submete-o a regras éticas precisas

a que não pode escapar,

caso contrário corre o risco de perder a sua legitimidade.

Ámen.

 

 (In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)