Encontro com a Palavra de Deus – XIV DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B

XIV DOMINGO TEMPO COMUM – ANO B

    

8 de Julho de 2018

 

AS LEITURAS DO DIA 

Ez 2, 2-5: Saberão que há um profeta no meio deles.

Salmo 122: Os nossos olhos estão postos no Senhor...

2Cor 12, 7-10: Gloriar-me-ei nas minhas fraquezas.

Evangelho Mc 6, 1-6: Um profeta só é desprezado na sua terra.

 

A PALAVRA É MEDITADA

“Chega Jesus!”: a notícia deve ter chegado a Nazaré com a velocidade de um relâmpago ou – dir-se-ia hoje - de uma sms, saltando do mercado dos cananeus, para o tanque público, a escola junto da sinagoga, passando de casa in casa, correndo de boca em boca. A fama de mestre sábio e de poderoso curador, ligada ao seu nome, espalhava-se praticamente há tempo em toda a Galileia, mas na aldeia aquelas vozes eram sempre acompanhadas de sorrisos maliciosos e um encolher de ombros entre o cético e o curioso: como é que durante trinta anos ninguém se tinha dado conta do verdadeiro cabedal daquele jesus, o filho de Maria, que na aldeia tinha sempre passado por um normalíssimo carpinteiro, mas que nos arredores vinha sendo decantado já há algum tempo como um astro de primeira categoria em questão de inteligência, sabedoria e poder prodigioso?  


1. Naquele sábado deve ter estado toda a aldeia esmagada na sinagoga e na praça em frente a ouvir Jesus, o qual desde que se tinha ido embora a pregar nos lugares vizinhos de Nazaré, não tinha mais regressado. Mas paradoxalmente aquilo que devia parecer um sucesso garantido, muito rapidamente se transformou num clamoroso desastre: “e não pôde ali realizar nenhum prodígio”, anota amargo e seco o evangelista. A trajetória da recusa é cuidadosamente e minuciosamente reconstruida por Marcos: parte-se da escuta (“muitos escutavam”), passa-se à admiração (“ficavam admirados”), por fim à perplexidade (“donde lhe vêm todas estas coisas?”), para acabar no desprezo (“um profeta só é desprezado na sua pátria”). Porque é que os conterrâneos de Jesus saltam da admiração á incredulidade? O evangelista ajuda-nos a encontrar a resposta: porque “se escandalizavam dele”. O escândalo é uma pedra na qual se tropeça e se cai. Deus – segundo os nazarenos – era demasiado grande para se abaixar e falar através de um homem tão simples! É o escândalo da incarnação: com Jesus esbatemo-nos contra o evento desconcertante e um “Deus feito carne”, que pensa com mente de homem, trabalha e age com mãos de homem, ama com coração de homem, um Deus que sua, come e dorme como nós. Como é possível? Nós gostaríamos de o ver como um super-homem, e gataríamos de ser pelo menos um pouco como pensamos que Ele seja; não aceitamos que ele seja como efetivamente somos.  

Eis a raiz da incredulidade. Afinal de contas é fácil dizer: “este jesus é mesmo um Deus!”; é muito difícil reconhecer: “Deus é mesmo este Jesus!”. Nós pensamos que devia resultar bastante simples para os seus conterrâneos acreditar nele, porque o viam na sua frente em carne e osso, enquanto nós devemos acreditar nele sem o ver, e não nos damos conta que a fazer esbarrar os nazarenos foi precisamente o excesso de familiaridade com o seu conterrâneo que se tornou ilustre. Precisamente porque conheciam a humildade das origens de Jesus e da sua condição, os habitantes de Nazaré recusaram-se a entrar na “lógica” humanamente tão ilógica de Deus o qual, para se tornar próximo de nós, se despojou da sua glória, “assumindo a condição de escravo, e fazendo-se semelhante aos homens” (Fil 2,7). Assim, em vez de se deixar meter em questão por Jesus, os seus conterrâneos metem em questão a Ele: porque é que Deus haveria de se revelar “neste” e não num outro concidadão, talvez mais rico, mais nobre ou mais poderoso? A conclusão, dramática, é aquela que tira S. João no prólogo do seu evangelho: “Veio aos seus, mas os seus não o receberam” (Jo 1,11).

2. Também para muita gente de hoje, mesmo dizendo-se cristã, se verifica uma situação análoga à dos habitantes de Nazaré relativamente a Jesus: o seu evangelho não suscita a impressão de qualquer coisa de novo e desconcertante para que se julgue conhecê-lo e dá-se por descontado. Hoje muitos cristãos, quando ouvem o evangelho, têm muitas vezes a sensação de se encontrar diante de qualquer coisa que já sabem de cor, e assim a sua reacção não é mais a admiração, mas o abrir a boca, não é a maravilha, mas a dependência: é aquele cansado e satisfeito apagamento das cosias já ouvidas e mil vezes, sabidas e ressabidas. Escrevia João Paulo II: “Muitos europeus contemporâneos pensam de saber o que é o cristianismo, mas não o conhecem realmente. Frequentemente os elementos e as próprias noções fundamentais da fé já não são conhecidos. Muitos baptizados vivem como se Cristo não existisse: repetem-se os gestos e os sinais da fé, mas a eles não corresponde um real acolhimento do conteúdo da fé e uma adesão à pessoa de Jesus”.

A conclusão é que “há necessidade de um renovado anúncio mesmo para quem é bapizado”. Há urgência de “nova evangelização”. Mas fazer a nova evangelização não é fazer uma evangelização nova, diversa, mas é sim fazer nova – isto é diversamente – a evangelização. Em concrecto a questão nodal: como restituir frescura ao anúncio a quem pensa que já acredita?

Antes de mais é preciso partir de novo do coração da fé, que não é uma série de formulas a aceitar, ou de normas a observar ou de ritos a praticar, mas é uma pessoa: Jesus Cristo, único Senhor e Salvador de todos. Mas para que Jesus - a sua obra, a sua pessoa – seja de verdade uma feliz notícia de salvação, é necessário não o reduzir a objecto ou argumento de que discutir, mas é indispensável deixar-se encontrar por Ele como sujeito vivente, que “me amou e se deu por mim” (Gal 2,20), que vem ao meu encontro como o caminho, a verdade e a vida.  

Além disso, é preciso nunca esmagar o desconcertante paradoxo do evangelho sobre o bom senso corrente, caso contrário sai um “evangelho modelado sobre o homem” (Gal 1,11). “Não se pode falar de Jesus Cristo de modo óbvio. A realização das esperanças humanas da parte do evangelho é sempre surpreendente e passa primeiro pela sua reversão, coisa que é motivo de fé para alguns e de escândalo para outros. Todas as religiões dizem que o homem deve estar pronto a dar a vida por Deus, mas o evangelho fala antes de mais que o Filho de Deus deu a vida pelo homem. O movimento foi revirado. Não são os discípulos que lavaram os pés ao senhor, isto seria óbvio; mas o Senhor que lavou os pés aos discípulos, isto é verdadeiramente surpreendente. A revolução feita por Jesus compromete o crente a, por sua vez, revolucionar o modo de pensar Deus e a sua glória” (CEI, Questa è la nostra fede).

Quanto foi dito até aqui não se poderia realizar sem o testemunho vivo e concreto, belo e atraente de pessoas famílias e comunidades cristãs que vivem “paradoxalmente”, segundo critérios que estão em nítida antítese com o senso comum. É o fascínio de uma vida nova que aponta para a que João Paulo II chamava a “medida alta” da santidade.  

Ora o Senhor vem ao nosso encontro no sinal pobre de um pedaço de pão partido: a sua presença não é menos verdadeira e intensa de quando Ele aparecia só como um simples homem entre os homens. Felizes de nós se soubermos reconhecê-lo! Felizes de nós se soubermos fazer-nos reconhecer como seus discípulos e testemunhas!

 

A PALAVRA É REZADA

Deveria ser um regresso em grande estilo,

na tua aldeia, Jesus.

Já te acompanha a fama dos milagres realizados

e à tua palavra são reconhecidas

uma sabedoria e uma força especiais.

Ma as coisas vão bem noutro sentido…

Se existem, pelo menos no inicio, admiração entusiasmo,

depois manifestam-se dúvidas e incompreensões.

Porquê? Porquê um acolhimento deste género?

Porquê uma incredulidade que bloqueia

a força prodigiosa do teu amor que cura e levanta?

A suscitar escândalo entre os teus conterrâneos,

entre quantos julgam conhecer-te desde sempre

é precisamente o facto que te consideram um deles, como eles.

E parece-lhes impossível que Deus fale 

e actue não através de personagens das altas esferas, 

ou dignitários prestigiosos, ou chefes de famílias sacerdotais,

mas por meio de um homem 

que partilhou em tudo a sua existência.

Ajuda-me, Jesus, a acolher com alegria e gratidão

a acção do Espirito, mesmo e sobretudo quando me surpreende.

Ámen.

 

 (In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)