Um pensamento novo para uma ecologia nova

Salvar o planeta, se não está na nossa boca, pelo menos está nos nossos ouvidos e na nossa mente.

Se não é um farol aceso, é ao menos uma luzinha a indicar que a nossa salvação passa também por aí. Para conseguir isto o que mais se tenta comunicar no meio social são os comportamentos concretos como a redução dos gastos e da emissão de carbono, menos poluição, a organização e a reciclagem do lixo entre outros.

Também nós, homens e mulheres da Igreja e do mundo, temos vindo a colaborar nisto. A Igreja tem contribuído sempre mais na procura de uma solução.

O próprio Papa Bento XVI na sua encíclica – Caritas in veritate – falou várias vezes, directa ou indirectamente, sobre o tema ecológico. A mensagem para o Dia Mundial da Paz – Se quiseres cultivar a paz, preserva a criação – fez eco da mesma.

O que aparece claro nos seus ensinamentos é que não se pode reduzir o tema ecológico à política da poupança energética, ao investimento da ciência e da técnica neste campo, à organização do lixo, o que também é preciso. Acima de tudo há uma maneira de pensar, de estar, de se relacionar principalmente entre as pessoas – antes de com as coisas – que é preciso melhorar, mudar, “converter”. Isto porque nos encontramos num mundo que não foi feito ao acaso, mas é fruto de um pensamento, de um projecto divino. Nenhum de nós é fruto de uma casualidade, mas de uma vontade, de um desejo. Não considerar esta vontade e sair dela leva ao que está à vista de todos: passar do Cosmo inicial, isto que dizer da ordem inicial, com que foi criado o mundo e cada um de nós para a desordem das alterações feitas pelas nossas mãos.

UMA ECOLOGIA NOVA NASCE DUM PENSAMENTO NOVO

 

No congresso sobre as Ordens e Congregações Religiosas em Portugal, ocorrido na Gulbenkian entre os dias 2 e 5 de Novembro, não faltaram intervenções sobre este assunto, como a do filósofo franciscano, Pe. José António Merino, apresentando o contributo do humanismo franciscano a esse respeito.

Há uma trilogia sempre presente no pensamento e mais concretamente na experiência de Francisco e dos franciscanos: Deus, o homem e a natureza. Teologia, antropologia e cosmologia.

O problema actual, continua ele, não é Deus, o mundo religioso nem tão pouco é o Homem. O problema actual é a Natureza. Se na Idade Média o centro era Deus, depois foi o Homem, hoje é a Natureza.

Contudo não devemos esquecer que «todos os problemas são concêntricos», relacionados entre eles. Concretamente hoje devemos partir da Natureza, abrir-nos ao Homem e à Transcendência: cosmologia, antropologia e teologia.

O humanismo franciscano consiste neste partir da vida, reflectir sobre ela, e voltar para a vida. Por isso diz Ortega: «O franciscanismo é fermento da humanidade porque parte da vida».

Amor a Deus, aos homens e à natureza. Ninguém depois de Jesus Cristo, como São Francisco conseguiu um amor tão sincrónico.

O Pe. Merino insiste que o problema do ambiente não é só científico, nem técnico, nem político, mas sim cultural, ético e religioso, porque no fundo da crise ecológica está a questão da justiça, da igualdade, dos direito humanos e do respeito para com o mundo natural. É preciso, por exemplo, recuperar o tema da gratuidade: o sol, as estrelas, a água, a terra… Tudo é gratuito. Gratuito porque não vale. Não vale porque não se pode cosificar, quantificar... Por isso pode-se cantar as coisas. Cantar é a maneira mais sublime de estar no mundo e ao mesmo tempo de o salvar. Quem celebra canta. Quem canta não destrói, e quem não destrói já está a criar um mundo melhor.

A queda do muro de Berlim é um símbolo da queda da ideologia. Mas há outra queda necessária, que é a do mecanicismo: não ver a natureza como uma máquina, como um relógio. Quando a se vê desta forma, fica a faltar o mistério. Einstein dizia que os grandes cientistas são pessoas que sentem o religioso porque somente o mistério nos leva a descobrir o que há mais além. Fundamentalmente a ecologia ambiental necessita da ecologia mental.

ULTRAPASSAR O MECANICISMO

Deixemo-nos interpelar por um dos franciscanos que mais desenvolveu esta cultura, São Boaventura, que no livro “Itinerário da mente em Deus” escreve:

“Quem não se ilumina com o esplendor de coisas tão grandes como as coisas criadas, é cego,

quem não desperta com tantos clamores, é surdo,

quem, com todas essas coisas, não se põe a louvar Deus, é mudo,

quem, a partir de indícios tão evidentes não volta a mente para o primeiro princípio, é tolo.

Abre os olhos, os ouvidos e liberta os lábios e abre o teu coração

Não aconteça que todo o universo se levante contra ti”.