À descoberta de um rosto

Oração diante do Crucifixo de S. Damião

Deus altíssimo e glorioso, vem iluminar
as trevas do meu coração;

dá-me uma fé recta, uma esperança solida
e uma caridade perfeita;

faz-me sentir e conhecer, para que possa cumprir
a tua santa vontade que apenas quer o meu bem.

Amen.
(S. Francisco)

1. Um ícone.

Deus, pessoalmente, ninguém O viu. Deus não tem forma, nem cor, nem volume. Mas Deus para revelar e comunicar a si mesmo, deu uma imagem, um ícone que tem volume, cor e forma: é o ser humano, homem e mulher juntos. Pois o Filho encarnou-se através deste rosto humano que é imagem perfeita, isto é o visível do Deus invisível.

Desta maneira a Revelação que começa com a Palavra... Não é somente Compreensão, mas também Visão, porque a Palavra se fez carne.

O ícone, então, ajuda-nos a tomar consciência que a Palavra, o Evangelho, Jesus, é relação, olhar, sorriso, gesto... O ícone fala no silêncio... Comunica-nos toda a Revelação, em silêncio, através do olhar.

Acolhemos o Cristo-Revelação através do nosso olhar!

 

2. O ícone do Cristo de S. Damião.

Ainda novo, Francisco de Assis orava diante deste ícone quando ouviu uma voz que vinha do Crucificado e que lhe dizia: “Francisco, vai e repara a minha casa que, como vês, está quase em ruína” (2Cel 10).

Francisco começou a reparar a igreja onde rezava, mas logo compreendeu que se tratava da grande Igreja de Jesus... Ao fim da vida de Francisco, mais de 15.000 frades de todos os países reconstruíam a Igreja com um anúncio do Evangelho todo renovado.

O Cristo de S. Damião é um ícone que foi pintado no séc. XII pelas mãos de um monge da Síria. Podemos chamar este quadro, ícone do Cristo Glorioso, porque segue o estilo do evangelho de S. João. A coroa de glória que substitui a coroa de espinhos é o sinal mais evidente. Aqui, sofrimento e morte são engolidos pela glorificação. O quarto evangelho descreve-nos a luta entre a Luz e as Trevas (Jo. 1,5). Neste ícone resplandece o resultado final daquela luta: o corpo vitorioso de Jesus aparece mais luminoso enquanto ressalta sobre um fundo preto, símbolo de oposição à luz, de incredulidade, de pecado. A cor encarnada, símbolo do amor, enquadra todo o ícone, apresentando-o como lugar dramático da vitória da Luz e do Amor sobre as trevas.

A moldura deste ícone é formada por uma multidão de conchas. As conchas símbolo da beleza e da eternidade do céu, indicam que este ícone é destinado a revelar o mistério celeste.

Mais ainda, esta moldura não está fechada, e tem no fundo um espaço livre que constitui uma entrada. Mesmo nesta entrada podemos ver algumas personagens: são os crentes. Com a parte superior dos seus seres, as almas, já estão na morada celeste, no Reino do Pai.

Jesus, com a sua grandíssima estatura, ao centro do ícone, aparece como a árvore da Vida, na Cidade Santa (Gén 2,9; Ap 22,14.19). As personagens por baixo dos braços, “na luz do Senhor” (Ap 22,5), são os frutos vivos da árvore.

Então este ícone revela-nos o Reino. Todavia ainda não somos capazes de compreender claramente as realidades espirituais, “vemos como num espelho” (1Cor 13,12).

 

3. A coroa de glória.

Juntamente com a moldura, a coroa de glória de Jesus dá o tom a todo o ícone. Aqui, o mistério doloroso de Cristo não é esquecido ou escondido, mas encontra o seu sentido e realização na glória.

À luz desta coroa temos que ler todo o ícone!

Na coroa de glória de Jesus, encontramos as linhas da Cruz. Uma cruz que mergulha na luz da coroa. Esta coroa, com a cruz no meio, sintetiza a vida inteira de Jesus, a humilhação e exaltação dele (ver Fil 2,6-11). É uma coroa que dá sentido a cada sofrimento. Lembra-nos que cada coroa de espinhos pode ser mudada em coroa de glória. Anuncia a vitória da vida através da morte.

“Se o grão de trigo, caindo na terra, morrer... dá muito fruto” (Jo. 12,24).

 

4. O rosto de Jesus.

a - O véu sobre a face de Jesus.

Se olharmos bem, vê-se que o rosto, como também a coroa de glória de Jesus, estão levemente ocultadas. O seu esplendor é obscurecido pela sombra que cobre também o pescoço de Jesus. Como a glória de Jesus (= presença, pessoa, identidade, esplendor da divindade) estava, durante o êxodo, “coberta com o véu da nuvem”, agora ela está ocultada pela dimensão humana de Jesus.

Um acontecimento, porém, narra-nos como este véu de qualquer maneira foi tirado e a glória de Jesus manifestou-se: a Transfiguração. “O seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz” (Mt 17,2). Só Pedro, Tiago e João viram a sua glória. O privilégio reservado aos três discípulos vem ampliado no evangelho de s. João a todos os crentes. Assim fala Jesus com Marta: “Se acreditares, verás a glória de Deus” (Jo 11,40), e nas bodas de Caná, João afirma: “Manifestou a sua glória, e os seus discípulos acreditaram n’Ele” (Jo 2,11).

Mas não é sempre assim fácil ver a glória de Deus... Acreditar em Cristo! Também os familiares de Jesus, convidados às bodas, acabam por não acreditar n’Ele (Jo 7,5), porque estão preocupados a considerar exclusivamente o lado humano de Jesus.

Aquela sombra que oculta a glória de Cristo pode ser, em parte, tirada, já neste mundo, na medida em que olhamos Jesus com os olhos da fé.

b - Os olhos de Jesus.

Os olhos de Jesus, bem abertos, apresentam-no como o Vivente por excelência. Ele mesmo diz: “Não temas: Eu sou o Primeiro e o Último, O que vive; conheci a morte, mas eis-Me aqui vivo” (Ap 1,17-18). Ele é o “Príncipe da vida” (Act 9,15) e a Vida (Jo 14,6). E, ainda mais, Ele quer introduzir-nos na sua mesma vida...

Os olhos de Jesus são muito grandes, extraordinariamente grandes. Esta desproporção indica que Ele é o Vidente: o único que vê o Pai (Jo 6,46), porque está constantemente virado para Ele (Jo 1,18). Jesus assegura-nos: “Quem Me vê, vê o Pai” (Jo 14,9)...

Começa, então, a olhar o Pai no seu ícone Jesus; tornamo-nos videntes no Vidente. É também bom sentirmo-nos vistos pelos olhos de Jesus. É o pastor que tem um olhar penetrante, que “Conhece as suas ovelhas e chama todas com o seu nome” (Jo 10,3-14). Deixemos que Jesus olhe por nós... Deixemos que Ele nos chame pelo nosso nome... Contemos-lhes de nós, da nossa vida hoje!

 

5. Contemplação.

“Fitando nele o olhar, sentiu afeição por ele” (Mc 10, 21)

Quando o encontro com Deus é autêntico, jamais nos deixa indiferentes: por vezes um tumulto de pensamentos te agita, outras vezes desce no teu coração uma paz infinita... ? um encontro que dá paz e inquieta... Contemplando e interrogando o olhar de Jesus, escuta o teu encontro com Ele:

Chamado Mc 1,16-20; 2,13-14 (os primeiros discípulos).

Provocado Jo. 8,1-11 (Quem estiver sem pecado...)

Interrogado Mc 8, 27-30 (Quem dizeis que Eu sou?)

Assustado Mc 4,35-41 (Jesus acalma a tempestade)

Turbado Lc 24,36-40 (Porque estais perturbados...?)

Conquistado Jo 4,39-42 (a mulher de Samaria)

Amado Jo 10,11-21 (Eu sou o bom Pastor)

Jo 12,1-10 (A unção de Betânia).

... Tinha sempre a amarga sensação que ele quisesse que o olhasse nos olhos...

E eu não o fazia. Preferia desviar o meu olhar. Tinha medo. Pensava que podia encontrar um pedido nos seus olhos: queria algo de mim.

Um dia finalmente tomei coragem e olhei!

Não havia nenhum pedido.

Os olhos diziam só: “Amo-te”.

Olhei bastante tempo naqueles olhos.

Investiguei-os. Mas a única mensagem era: “Amo-te!”.

A sua maior aspiração, o seu mais vivo desejo e mais elevado propósito era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os “passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina” !