Encontro com a Palavra de Deus – Domingo de Pentecostes - ANO A

DOMINGO DE PENTECOSTES – ANO A

    

                           31 de Maio 2020

 

AS LEITURAS DO DIA 

Actos 2, 1-11: Todos Ficaram cheios do Espírito Santo.

Salmo 103: Mandai Senhor o vosso Espírito, e renovai a terra.

1Cor 12, 3-7.12-13: Todos nós fomos batizados num só Espírito.

Evangelho Jo 20, 19-23: Recebei o Espírito Santo.

 

 

A PALAVRA É MEDITADA

É mesmo verdade que a nossa vida é frágil: frágil ao ponto de estar presa por um suspiro. Normalmente não fazemos caso, metidos como andamos no frenesim dos nossos dias velozes: e, contudo, basta que o nosso respiro se canse um pouco para descobrirmos quanto é precária a nossa existência.  

Aconteceu já ao povo de Israel, durante o longo caminho no deserto. Tinham saído do Egipto cheios de força, tinham atravessado o Mar Vermelho lançando gritos de alegria. E, todavia, depressa – muito cedo – sentiram faltar-lhes o respiro: a estrada do deserto parecia longa e fatigosa, enquanto a terra prometida pelo Senhor se tornava sempre mais um sonho impossível. Foi então que os israelitas gritaram zangados contra Deus e contra Moisés: "porque nos fizeste sair do Egipto para nos fazeres morrer neste deserto?"

Exatamente esta é a pergunta que vem ao de cima na nossa vida quando a desilusão se faz sentir e o respiro se torna afanado: "porque nos fizeste sair do Egipto para nos fazeres morrer neste deserto?" porquê esta situação difícil, este imprevisto que incomoda, esta pessoa antipática? Porque esta existência difícil, que parece incapaz de manter as promessas feitas no início? "Porque nos fizeste sair do Egipto para nos fazeres morrer neste deserto?"

Também os discípulos de Jesus se tinham perguntado "porquê" diante da morte injusta do seu mestre. E tinham continuado a interrogar-se por longo tempo, não obstante Cristo se tivesse mostrado ressuscitado e vivo "aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando do reino de Deus". E, no entanto, os discípulos tiveram dificuldade em reconhecer a novidade da ressurreição: o seu respiro ficou afanado – no jardim do sepulcro, pela estrada de Emaús, no lago de Galileia – porque o medo era mais forte que qualquer outra evidência. Precisamente como lemos no Evangelho: "as portas do lugar onde se encontravam estavam fechadas por medo dos Judeus”.

Mas foi precisamente naqueles dias de medo que os discípulos repensaram a morte de Jesus sobre a cruz. E lembraram-se que também Ele – como eles – tinha o respiro afanado. Afanado com certeza por causa da morte que se estava a aproximar; mas afanado também por uma pergunta impiedosa: "Meu Deus, porque me abandonaste?"

Todavia este respiro de Jesus não se comparava com o respiro amedrontado dos discípulos fechado no cenáculo; e nem sequer era semelhante ao respiro zangado dos Israelitas no deserto; como nem sequer – em verdade – se compara ao respiro desiludido que percorre a nossa vida. O respiro afanado de Jesus não era um respiro sem memória: Ele recordava quem lhe tinha dado aquele respiro; e sobretudo tinha confiança – apesar de tudo – naquele que lhe tinha dado aquele respiro: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito".

Precisamente este respiro foi o que Jesus nos tinha dado morrendo na cruz. O evangelista João conclui a narração da paixão dizendo que Jesus, "inclinando a cabeça, expirou". Expirou: e isto é comunicou o seu respiro, deu o seu espírito. Exatamente aquele Espírito de que já tinha falado aos seus discípulos: "o Espírito de verdade", o respiro novo que "vos guiará para a verdade total".

Portanto na tarde do primeiro dia depois do sábado – "enquanto estavam fechadas as portas do lugar onde se encontravam os discípulos por temor do Judeus" – Jesus ressuscitado não fez mais que repetir o último gesto que tinha realizado na cruz: "soprou sobre eles". E através deste sopro pretendeu comunicar para sempre aos discípulos aquele respiro que o tinha animado, para que agora fossem eles a continuar a sua missão: "como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós".

Pois bem, hoje, neste domingo de Pentecostes, na conclusão da Páscoa, este Espírito de verdade é comunicado também a cada um de nós: "mandas o teu espírito, são criados, e renovas a face da terra". Hoje é-nos dado o Espírito Santo, o respiro de Jesus, para que também a nossa existência afanada tenha finalmente uma esperança: e não nos aconteça de viver sem futuro, agarrados a um respiro que sempre nos escapa.

 

 

A PALAVRA É REZADA

 

Vem, Senhor, passa o teu sopro como a brisa primaveril

que faz florir a vida e abre o amor,  

ou como o furacão que desencadeia uma força desconhecida

e levanta energias adormecidas.

Que passe o teu sopro no nosso olhar  

para o levar para horizontes mais distantes e mais vastos.  

Que passe o teu sopro nos nossos rostos entristecidos  

para aí fazer reaparecer o sorriso

nas nossas mãos cansadas para as reanimar

e as colocar de novo alegremente à obra.  

Que passe o teu sopro desde a aurora para trazer consigo  

toda a nossa jornada num ímpeto generoso.

Que passe o teu sopro ao aproximar-se da noite

para nos conservar na tua luz e no teu fervor.

Que passe e permaneça em toda a nossa vida

para a renovar e lhe dar as dimensões  

mais verdadeiras e mais profundas.

Ámen.                       

          

(In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)