Encontro com a Palavra de Deus – Solenidade do Natal – Missa da Noite

25 de Dezembro de 2016
ANO A

AS LEITURAS DO DIA 
Is 9, 2-7: Um filho nos foi dado.
Salmo 95: Hoje nasceu o nosso Salvador, Jesus Cristo, Senhor.
Tt 2, 11-14: Manifestou-se a graça de Deus para todos os homens.
Evangelho Lc 2, 1-14: Nasceu-vos hoje um Salvador.

A PALAVRA É MEDITADA
Luz – curral – periferia

Um breve versículo do Evangelho de Lucas anuncia-nos a alegria do Natal, mas é um versículo denso de significados que vão para além das palavras. Como sabemos a narração evangélica não tem preocupações históricas – no sentido técnico da palavra – mas as de promover a fé em quem o escuta, de o envolver e fazê-lo entrar naquela história que é história de salvação.


Deu à luz


Quantas outras expressões estão no vocabulário e que exprimem o nascimento, e no entanto Lucas escolhe precisamente dar à luz, porque Jesus é “a luz verdadeira, aquela que ilumina todo o homem” (Jo 1, 9).


Zacarias no nascimento de João tinha dito “Graças à ternura e misericórdia do nosso Deus, nos visitará um sol que nasce do alto, para resplandecer naqueles que vivem nas trevas e na sombra da morte” (Lc 1, 78-79). O mistério daquela luz envolve-nos, não só ilumina “os nossos passos no caminho da paz” (Lc 1, 79) mas torna-nos luz para o mundo (Mt 5, 14). É necessário portanto que a luz que está em nós não se torne trevas, que o nosso corpo seja todo luminoso, sem ter nenhuma parte nas trevas e estará tudo na luz (cfr. Lc 11, 35-36). É fabuloso como Lucas fale de corpo luminoso, não de espirito ou de alma, porque o testemunho da luz não é um facto interior e intimista, mas manifesta-se nas escolhas concretas da vida na sociedade em que vivemos.


Deitou-o numa manjedoura

A tradição antiquíssima coloca junto daquela manjedoura um boi e um burro retomando uma imagem do profeta Isaías (Is 1, 3) em que o boi e o burro reconhecem a manjedoura do seu dono o contrário do povo de Israel que não reconhece a obra de Deus. Esta tradição não tem verdade histórica, mas a imagem que Lucas nos oferece, é certamente a de um curral e um menino foi posto na manjedoura dos animais. A imagem alegórica é extremamente forte: desde o nascimento Jesus oferece-se como alimento. A iconografia oriental vai mais longe transformando a manjedoura num sepulcro para nos ensinar a compreender que o mistério do Natal é o mistério do dom que o Senhor faz de si mesmo.


O curral faz-nos pensar na palha e no feno e naquele cheiro acre que tanto exprime a nossa pequenez diante da grandeza de Deus. Um Deus que não tem medo de se fazer envolver naqueles odores e que acolhe cada homem na sua debilidade e fragilidade.


Não havia lugar


Quanta fadiga para encontrar um alojamento! A mesma fadiga que foi de José e Maria, é agora de tantos homens e mulheres que não encontraram lugar no nosso mundo porque estrangeiros ou desfavorecidos. São aqueles que dormem nos bancos do jardim, ou nas carruagens dos comboios, mas também aqueles que para se manterem um alojamento se contentam com um trabalho negro, mal pago; são aquela vasta panorâmica de pessoas que parecem não contar mas que no fundo se tornam úteis para manter riquezas e poderes dos outros. José e Maria foram para fora, para a periferia, longe dos olhares dos bem pensantes e de quem tomava decisões. Mas os anjos avisaram os pastores que acorreram para ver aquele menino e fazer festa.


Também nós queremos fazer festa e que cada festa procure assemelhar-se àquela festa, cujos homens simples se alegraram com José e Maria pelo nascimento daquele menino que veio alegrar o mundo.           

A PALAVRA É REZADA


Pelo teu nascimento, Senhor, mexeram-se os anjos,  

para irem cantar a glória de Deus e para anunciar a boa notícia da paz.

Também os pastores se puseram a caminho para te irem encontrar

e para se ajoelharem diante de ti, tornando-se testemunhas do teu nascimento.

Também eu me movi de casa e vim à igreja,

levado pela mais pela tradição que pela fé,  

desejosos de escutar as músicas natalícias  

mais que de te adorar, feito menino,

desejoso de mostrar a minha roupa nova,

mais que de me deixar olhar pelo teu sorriso amoroso.

Ajuda-me, Senhor, a perceber o verdadeiro sentido do teu Natal

de modo que também eu saiba unir-me ao coro dos anjos e ao passo dos pastores,

para que possa ser em toda a parte e sempre testemunha do teu nascimento  

com a palavra e com as obras.

Ámen.

(In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de Fr. José Augusto)