Encontro com a Palavra de Deus – I Domingo do Advento – ANO B

I DOMINGO DO ADVENTO - ANO B

    

3 de Dezembro de 2017

 

AS LEITURAS DO DIA

Is 63, 16.19; 64, 2-7: Oh, se rasgásseis os céus e descêsseis.

Salmo 79: Senhor nosso Deus, fazei-nos voltar, mostrai-nos o vosso rosto e seremos salvos.

1Cor 1, 3-9: Esperamos a manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Evangelho: Mc 13, 33-37: Vigiai, porque não sabeis quando virá o dono da casa.

 

A PALAVRA É MEDITADA

“A todos digo: Vigiai!”. São as últimas palavras de Jesus antes da sua paixão; não parece exagerado considera-las o seu testamento espiritual, referido no evangelho de Marcos, que começamos a ler, a partir deste 1º domingo do advento, durante todo o ano B. de facto, como segundo o evangelho de João, o testamento de Jesus se pode resumir no convite à unidade entre os crentes – em forma de súplica ardente ao Pai “para que todos sejam um” – assim o ultimo grande discurso de Jesus, referido por S. Marcos no cap. 13 – o mais longo de todo o seu evangelho – é ritmado pelo convite à vigilância, que aparece como um refrão por seis vezes, das quais três nos breves cinco versículos deste texto de hoje.

1. Um apelo tão premente não é a represália de um polícia numa emboscada: é uma súplica insistente de Jesus dirigida a nós seus discípulos, não certamente para nos meter medo, mas para exprimir o medo que Ele, bom Pastor, tem de nos perder. Daqui aquela vibração de urgência que percorre as suas chamadas de atenção prementes à vigilância: vigiai! Estai atentos! Vigiai! Estai preparados! O motivo é sempre o mesmo: o dia do Filho do homem vem sem pré-aviso e a sua hora chega sem mensagens no telemóvel nem com carta registada com aviso de recpeção. Portanto é preciso vigiar: a sua vinda imprevisível e imprevista é como o assalto do ladrão para quem o teme, como a chegada do esposo para quem o procura e o espera.

Mas o que é que significa vigiar? O próprio Jesus no-lo explica, com algumas abordagens: “Vigiai e estai preparados”. A palavra grega (agrypnéo) indica alguém que passa a noite em campo aberto, atento ao mais pequeno rumor, para evitar que a colheita seja roubada ou o campo danificado por algum ladrão. Estar “atentos” significa estar sempre alerta, de sentinela. Não é por acaso que o apelo à vigilância se encontra, na boca de Jesus segundo Maros, imediatamente antes do momento dramático da paixão, quando os discípulos serão surpreendidos a dormir.

Outra abordagem: “Vigiai e estai preparados” (cfr. Mt 24,44). Aqui, no evangelho de Marcos, o convite a estar sempre prontos é dado com a imagem do porteiro, o qual deve estar constantemente preparado para acolher o dono de casa que de um momento para o outro poderá regressar: a sua chegada é iminente, fulminante; por isso a única atitude sábia e segura é a vigilância.

2. Tanta insistência sobre a vigilância explica-se com uma dupla preocupação do evangelista: na sua comunidade deviam existir cristãos que, visto que os anos passavam e o “dia do Senhor” não chegava, tinham acabado por abandonar qualquer vigilância e para se adaptarem até demasiado bem a este mundo. Outros, ao contrário, viviam com a síndrome do fim iminente e estavam sempre ali a fazer cálculos e previsões sobre o “quando” e sobre o “como”. Aos primeiros Jesus recomenda: estai atentos, vigiai! Mas aos outros adverte: Ainda não é o fim! Paradoxalmente a conclusão é idêntica: na grande noite do mundo, os discípulos são postos como sentinelas.

Recordai-mos a clara lição do Concilio: “Ignoramos o tempo em que serão levados a cumprimento (consummandae não consumendae!) a terra e a humanidade e não sabemos o modo com que será transformado o universo” (GS 39). Precisamente porque ignoramos o momento da última vinda do Senhor, nós somos aqueles que “esperam a manifestação do Senhor nosso jesus Cristo” (2ª leitura). Precisamente porque não conhecemos nem o dia nem a hora do supremo cumprimento, nós devemos estar prontos para qualquer hora e para qualquer dia, sabendo bem que todos os dias Ele vem, porque, desde que veio habitar no meio de nós, permanece connosco para sempre, “todos os dias, até ao fim do mundo”.

3. Mas o que é que significa para nós hoje vigiar, estar atentos, estar prontos? Significa nunca esquecer que a vida é uma peregrinação, não uma vagabundagem cheia de sorte, e nem sequer um mais ou menos agradável passeio turístico: portanto nunca nos devemos iludir de já termos chegado e nunca podemos esquecer da nossa meta. Porque o senhor vem! Significa preparar-se para a “santa viagem” com um equipamento leve, com a “bolsa de peregrino”, munida do essencial: caso contrário, não nos mexeremos de etapa em etapa, mas deslocar-nos-emos apenas de sofá em sofá. Porque o Senhor vem!

Significa não medir o tempo da morte para cá, mas da morte para lá: por isso nada nos perturbe, nada nos assuste: só o Senhor basta!

Vigiar significa considerar os outros - familiares, amigos, colegas – nossos companheiros de peregrinação: portanto significa amar cada um como um irmão tido como dom sem nunca desejar possuir alguém como propriedade privada; significa servir a todos, mas não escravizar ninguém. Porque o Senhor vem!

 

A PALAVRA É REZADA

Senhor Jesus, não estou atento a fazer bem aquilo que devo fazer.

Não estou a tento a compreender as necessidades dos outros.

Não estou a tento a dividir o muito que tenho com quem não tem nada.

Não estou atento sequer a ceder o meu lugar no autocarro a um idoso que vai de pé.

Não estou atento a não gastar aquilo que pertence à comunidade.

Senhor! Sou mesmo uma pessoa errada.

Hoje, neste primeiro passo de Advento, dá-me, Senhor, um forte abanão

para que não seja como um adormentado ou como uma pessoa

que espera e exige tudo dos outros

sem nunca fazer o melhor do seu possível pelos outros.

Não quero mais absolutamente ser uma pessoa que vive só para matar o

tempo com o coração vestido de noia afligindo também os outros.

Ámen.

 

(In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)