Encontro com a Palavra de Deus - VI Domingo da Quaresma - ANO A

VI DOMINGO DA QUARESMA – ANO A

DOMINGO DE RAMOS

    

                           5 de Abril 2020

 

AS LEITURAS DO DIA 

Is 50, 4-7: Jesus Cristo é o Servo de Deus que se oferece.

Salmo 21: Meu Deus, meu Deus porque me abandonastes?

Filp 2, 6-11: A sua humilhação vai até à cruz.

Evangelho Mt 26,14-27,66: Que estais dispostos a dar-me para vos entregar Jesus?

 

A PALAVRA É MEDITADA

Teriam gritado as pedras naquele dia pelas estradas de Jerusalém vendo passar um líder sem sinais de poder e grandeza, um líder montado num burro manso como era manso o coração de quem ia em cima dele.  

E talvez renha sido esta mansidão que tinha exaltado o coração de todos os presentes, que tinham feito eco agitando festivamente ramos de palmeira e acenando com os seus mantos em sinal de homenagem e reverência. Era o triunfo da doçura!

Uma simples manifestação, improvisada, mas sincera, que tinha chamado a atenção de todos aqueles que se encontravam nas proximidades e que se comunicavam entusiastas os acontecimentos daquele homem em benefício da pobre gente. Era o triunfo do Amor!

Mas a popularidade atrai a atenção de todos, e sobretudo daqueles que nela descobrem algum retorno pessoal. Alguém pensou em desfrutar daquele momento de entusiasmo do povo para o fazer tornar um motim. Outros viram aí a ocasião para negociar uma recompensa com os opositores, que mal suportavam tanta publicidade. Outros teriam desejado ver se aquela doçura para com os miseráveis teria durado caso tivesse sido também Ele um miserável.

Teriam querido meter a dura prova a resistência daquele amor aplicando-lhe um sofrimento. Teriam querido medir a sua generosidade levando-a ao dom total de si mesmo. Poucos souberam alegrar-se pela honestidade reconhecida, como poucos sabem alegrar-se com o sucesso dos outros.

E eis que aqueles ramos festosos se tornam coroas de espinhos, os mantos tornam-se zombaria por um rei presunçoso, a cavalgadura vira-se num tronco de cruz aos ombros.  "Vejamos se as suas convicções mudam com o sofrimento lacerante e mortal!" Porque é que muda assim tão rapidamente o vento do povo? Porque não está acostumado à doçura dos seus chefes, porque não conhece um reino de amor, porque não está habituado a um guia que se dá!

Um pouco não acredita, um pouco quer as provas e um pouco se aproveita. É a história de toda a popularidade, sobretudo daquela conquistada com as próprias forças, e também daquela vivida para o bem do homem. É a história de um Salvador, que em vez de encontrar gente desejosa de ser salva, encontra frequentemente arrogantes assassinos. É a história da humanidade que tem dificuldade em reconhecer qualquer salvador. É a história dos Ramos que hoje servem para festejar e honrar um ingresso triunfante e logo a seguir para reconhecer e honrar um mártir.

Mas Ele não pára sequer diante deste desafio dos incrédulos. Sabe muito bem que o Amor, entre os homens, se prova com a dor e com o dom total de si. E Deus, que se revestiu de humanidade, veste este absurdo sinal do amor. Não se rende sequer diante da traição, consciente que quem aplaude entusiasticamente está pronto a pedir a prova e a pregar-te com igual energia.

E enquanto nós voltamos as costas a quem trai, Ele oferece o seu corpo a quem quer tentar torná-lo inexpressivo, a quem quer fazer-lhe mudar de ideias sobre a generosidade, a quem tenta mandar pela garganta abaixo aquele fluxo de amor. E os pregos são o sinal de uma imobilidade forçada, a cruz a cadeia de segurança, a coroa o selo até dos pensamentos.

Tornado impotente para sempre, agora o que é que fará? Não poderá mais acariciar, abençoar, confortar, como se quem teu tudo tivesse ainda necessidade de fazer alguma coisa. Permanece um inerme corpo pendurado no madeiro, sinal de quem não tem mais nada para dar. É o triunfo do Amor!

 

 

A PALAVRA É REZADA

 

Havia entusiasmo á tua volta, naquele dia,

uma alegria que tu aceitas se sabes bem

quanto seja inconstante o humor da multidão.

Reconheciam que vinhas de Deus,

um profeta, alguém que fala em seu nome,

mas ao mesmo tempo admitiam

que eras muito mais, o Messias tão esperado.

A tua palavra não tocava só os corações,

mas mudava a existência,

curava os doentes, restituía a vida,

transmitia o perdão de Deus,

libertando do fardo dos pecados.

Eras decididamente um profeta diferente, Jesus,

imune de qualquer procura

de sucesso, de prestígio, de poder.

Por isso tinhas chegado montado num jumento…

Tu não recriminas quem te manifesta

o seu afeto, a sua estima, o seu apreço,

mas sabes também que te espera

uma passagem dolorosa e terrível,

ao ponto de produzir desalento

naqueles que agora te aclamam.

Sim, porque o desígnio de Deus

se cumprirá de modo totalmente inesperado,

através da tua humilhação,

da tua condenação, da tua paixão,

da tua morte no madeiro da cruz.

Caminhos estranhos, mas ditados pelo amor,

um amor que não se impõe,

um amor que acolhe a todos

e aceita dar-se, repartir-se

como um pão bom a quem tem fome.

Ámen                                

 

(In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)