Encontro com a Palavra de Deus – V Domingo da Páscoa - ANO C

V DOMINGO DE PÁSCOA – ANO C

    

                           19 de Maio de 2019

 

AS LEITURAS DO DIA 

 

Act 14, 21-27: Contaram à Igreja tudo o que Deus tinha feito por eles.

Salmo 144: Louvarei para sempre o vosso nome, Senhor, meu Deus e meu Rei.

 

Ap 21, 1-5: Deus enxugará todas as lágrimas dos seus olhos.

Evangelho Jo 13, 31-33.34-35: Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros.

 

A PALAVRA É MEDITADA

“Eis que faço novas todas as coisas!”

No filme “The Passion” de Mel Gibson, o realizador mete estas palavras do Apocalipse na boca de Jesus sobre a cruz, depois do comovente encontro com a Mãe dolorosa. Na hora do esmagamento e da derrota, o Senhor, fortalecido pelo olhar da Mãe, levanta-se e procede em direção ao Calvário.  

A liturgia pascal oferece-nos a possibilidade de regressar aos traços de Jesus nas suas últimas horas de vida terrena, para acender também na sua paixão a luz da ressurreição.

Entre os lugares a que voltamos com frequência está o cenáculo, lugar da eucaristia e do lava-pés, das palavras de amor de Jesus e da perturbação dos seus discípulos. É o mesmo lugar em que o Ressuscitado se revelou na tarde de Páscoa e depois, passados oito dias, na presença de Tomé.

Também nós somos chamados hoje a subir àquele lugar, ao andar superior, e observar quanto está a acontecer tentando ter um ouvido e um olhar particulares: os dos discípulos que Jesus amava. Poucos versículos antes, de facto, durante o anúncio da traição, o evangelista apresenta-nos o discípulo reclinado sobre o peito de Jesus, numa atitude mais espiritual que física que nos permite escutar de modo profundo as muitas palavras que a partir de agora (até ao capitulo 17) Jesus pronunciará aos seus amigos.

Chegou a hora, iniciada em Caná, da glorificação de Jesus. E não é uma glorificação à maneira dos homens, mas à maneira de Deus. Chegou a hora do Amor, enquanto Judas está realizando a obra das trevas (“era noite” cfr. 13,30b) e o Pai, abandonando o Filho na noite da morte, está já preparando a madrugada da vida. é a hora em que, entre a perturbação geral diante de quanto está para acontecer, não se pode falar se não de amor.

De todas as grandes personagens da história recordam-se as últimas palavras. Também nós recordamos com intensidade os últimos instantes da vida dos que nos são queridos, com aquilo que nos disseram, como testamento…

O evangelista não só nos diz as palavras de Jesus, mas mostra-nos Jesus Palavra, Verbo da vida, Verbo feito carne, Palavra feita silêncio. Ser glorificado por Deus significa ser elevado numa cruz.

Que estranho modo de vencer, com uma aparente derrota! Que estranho modo de triunfar, tão distante dos nossos modos de combater e de lutar para obter coroas e riquezas corruptíveis. Eis então o mandamento novo: que vos ameis uns aos outros!

Na realidade já o Antigo Testamento tinha este preceito, mas agora o mandamento é “novo” porque completado pelo próprio jesus, vivido em primeira pessoa, e para não fazer morrer o amor, Jesus ama-nos a ponto de morrer, morre por amor.

Precisamente porque Jesus nos amou primeiro, nós, agora podemos corresponder com um amor recíproco, desinteressado, como o seu. Sem o seu acto de amor nós não seriamos capazes de nada.

Santa Catarina de Sena, extasiada por este amor louco de Jesus escreverá: “Tu poisaste os olhos apenas sobre a beleza da tua criatura, porque se tivesse visto em primeiro a ofensa, terias acabado por esquecer o amor que movia a criar. Não, isto não ficou escondido, mas tu fixaste-te sobre o amor, porque não és mais que fogo de amor, louco pela tua criatura”.

É este amor “novo” que torna já agora “novos” os céus e a terra, segundo a visão do Apocalipse. É este mandamento “novo” que torna bela a terra, fazendo Jerusalém “nova”, e  transformando a humanidade crente na igreja “esposa” pronta para o seu esposo.

É assim que muda o nosso modo de viver quotidiano. É assim, com este olhar novo, que se renova a confiança na Vida eterna, mesmo quando a nossa vida é abalada pelas dificuldades, às vezes dramáticas, a que vamos ao encontro.

A liturgia de hoje convida-nos a levantar os olhos, a fazer nossa a dimensão essencial da Páscoa: a alegria do encontro com o Ressuscitado, uma Pessoa viva. As testemunhas do ressuscitado estão “condenadas à alegria” e se tivesse que haver ainda algum motivo de pranto, Ele, com a mão de Pastor e de esposo, enxugarás as lágrimas dos nossos olhos. É esta a firme esperança do cristão: todas as lágrimas do mundo, causadas pela maldade do homem, na história e no hoje, desaparecerão, diante do Deus connosco, Aquele que mora entre os homens para que os homens possam encontrar morada Nele.

 

A PALAVRA É REZADA

 

Aos teus discípulos não confiaste um distintivo a exibir,

nem uma farda a vestir e nem sequer um documento particular

que sirva de contrassenha.

Como reconhecê-los, então, Jesus, misturados na multidão colorida e multiétnica?

Aquilo que os revela porque marca de modo claro a sua identidade,

não é o cartão do partido, nem uma palavra de ordem,

mas o amor que demonstram uns pelos outros.

Um amor fraterno, não obstante as diferenças e condições sociais,

de proveniência, de cultura, de língua.

Um amor capaz de superar todo o obstáculo desde que ofereça solidariedade,

um amor que vence o medo, que supera a desconfiança,

que ignora os preconceitos e suspeitas.

Um amor que se exprime mediante facetas diversas:

torna-se misericórdia com quem nos ofendeu,

faz-se serviço humilde aos mais desfavorecidos,

sabe oferecer ternura para fortalecer quem vacila e quem caiu,

quem cometeu erros terríveis.

Um amor que não é submisso a critérios formulados por nós,

mas se joga profundamente precisamente como fizeste tu.

Ámen                               

 

(In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)