Encontro com a Palavra de Deus – XXXI DOMINGO TEMPO COMUM – ANO A

XXXI DOMINGO TEMPO COMUM – ANO A

    

5 de Novembro de 2017

 ANO A

 

AS LEITURAS DO DIA 

Mal 1,14-2.8-10: Afastastes-vos do caminho e fizestes tropeçar muitos.

Salmo 130: Guardai-me junto de Vós, na vossa paz Senhor.

1Tes 2, 7-9.13:Fizemo-no pequenos no meio de vós.

Evangelho: Mt 23, 1-12: Dizem e não fazem.

 

A PALAVRA É MEDITADA

Além dos cinco grandes discursos que constituem as “colunas” do evangelho de Mateus, também o cap.23, de que lemos hoje os primeiros 12 versículos, é um discurso construído pelo evangelista com base nas suas fontes e na situação da sua comunidade, na Síria, nos anos 80 d. C. trata-se de um conjunto de frases pronunciadas por Jesus em várias circunstâncias, unidas e organizadas à volta de um único tema: a crítica serrada do Mestre ao comportamento hipócrita e vaidoso de escribas e fariseus, por Ele realmente pronunciada com os clássicos violentos tons dos profetas.

Vejamos antes de mais quem eram os membros dos dois grupos recordados.

A palavra "escriba" antes do exilio (6° séc. a.C.) designava um funcionário real, uma espécie de secretário encarregado da correspondência do rei; depois do exilio, os escribas eram especializados na transcrição do Torah e dos textos relativos ao culto, transcrição que como é conhecido era rigorosíssima. Ora, possuindo estas particularidades, os escribas eram entre os melhores conhecedores das Escrituras, que estudavam e interpretavam com grande compromisso. No tempo de Jesus eram os intérpretes oficiais da Torah, chamados por isso também “doutores da Lei”. As escolas por eles fundadas ofereciam estudos superiores, através da transmissão oral da Torah, com animadas discussões e sentenças. É mérito destas escolas ter conservado o imenso património cultural do judaísmo.

Além disso, dado que na mentalidade judaica tudo devia ser submetido e regulado pela Lei, muitas vezes os escribas deviam resolver, além das problemáticas teológicas, também questões jurídicas. O discípulo do escriba devia imprimir na memória e repetir "as palavras" do mestre; quando chegava a autonomia absoluta, era proclamado por sua vez como "escriba"; mediante a imposição das mãos era ordenado e inserido na cadeia ininterrupta de mestres da tradição oral que remontava a Moisés. Então era chamado "rabi", usava o hábito longo e obtinha na sinagoga o lugar de honra, na cátedra de Moisés.

Os escribas eram objecto de grande veneração por parte do povo, enquanto especialistas da Torah, mas constituíam uma classe fechada em si mesma; parece que eram raros os matrimónios com mulheres que não pertencessem a famílias de escribas.

Quanto aos fariseus, a sua primeira menção deve ser procurada nos pios, que encontramos perto de Matatias e Judas Macabeu, no início da revolta chamada "macabeia" (167 a.C.) contra a imposição aos judeus de costumes pagãos.

Os fariseus constituíam a corrente religiosa mais numerosa e mais representativa do mundo judaico nos tempos de Jesus; eram muito escutados e tinham autoridade sobre o povo; os escribas por sua vez, eram definidos tais com base na sua profissão, o que explica como muitos deles pertencessem ao grupo dos primeiros.

Havia porém, um perigo constante que insidiava os fariseus: dar importância às obras em si mesmas, a prescindir da intenção, e até mesmo, antepô-las à obra de Deus, apresentando-lhe a Ele a lista de todo os méritos, motivo de orgulho e de vaidade.

No texto de hoje, Jesus critica duramente escribas e fariseus, porque "dizem e não fazem" (v.3b), isto é, pela incoerência da sua vida, e porque "todas as suas obras são feitas para serem admirados pelos homens … gostam dos lugares de honra … e serem chamados "rabi" pelas pessoas" (vv.5-7). Incoerência, exterioridade, e hipocrisia, marcavam sempre mais a corrente farisaica, ao ponto de obscurecer os valores e os elementos positivos que não faltavam e Jesus não foi meigo para com eles.

Não é fácil separar nitidamente as palavras pronunciadas pelo Messias e as que foram acrescentadas pelo escritor, que tem como auditório a comunidade cristã dos anos 80. Existe uma base histórica da crítica de Jesus ao farisaísmo, mas também existe a sobreposição do nível da comunidade de Mateus, que se encontrava diante de dois antagonistas: o judaísmo oficial, que considerava os cristãos como renegados e o risco elevado que também na comunidade cristã se difundisse o "farisaísmo".

Por "farisaísmo", entende-se o desejo de ser acreditado diante dos outros mais que diante de Deus: é a eterna tentação de toda a experiencia religiosa, que se ilude de se sentir “no seu lugar” com Deus porque se observaram minuciosamente os seus preceitos.

É uma tentação ainda presente nas nossas comunidades, onde existe quem considere sentir-se tranquilo porque vai à Missa ao domingo e talvez porque dá uma esmola para a igreja, mas – como dizia Jesus - "transgride as prescrições mais graves da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade" (Mat 23,23)

 

A PALAVRA É REZADA

Jesus, Mestre divino, amo-te,

adoro-te em mim e no coração da Igreja, tua esposa e minha mãe.

Sem a Igreja eu não seria teu irmão,

não teria a graça, o perdão, a Eucaristia, o Espirito Santo.

Sem a Igreja eu, todos, seriamos servos,  

escravos do demónio, privados do alimento espiritual  

da tua Palavra e do teu Corpo.

Obrigado por esta Mãe que amo,

mas precisamente por isso, porque sou filho,

peço-te que a livres de toda a ruga,

que  a purifiques da procura do poder e da honra,

isentando-a também da aparência, do apego ao dinheiro.

Torna-a humilde, generosa, disponível, sóbria,

materna e misericordiosa.

Tu, que és o único Mestre, dá aos nossos pastores

a graça de superar todos os obstáculos e fragilidades humanas,

e de crescer espiritualmente, tendo os olhos fixos em ti,

quando, de joelhos por terra, lavaste os pés aos teus apóstolos.

Concedi também a nós, Senhor Jesus,  

o espírito de compreensão, de humildade,  

de docilidade e de amor filial, para possamos caminhar  

no caminho da perfeição evangélica

onde nos introduziste com o Batismo.

Ámen.

 

 (In Qumran, e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)